As feiticeiras

As feiticeiras

 

Quando o Todo-Poderoso deu aos Tsadiquim o poder de fazer milagres, simultaneamente deu à humanidade o de praticar a feitiçaria por meio das forças da Tuma (impureza). Os homens também têm a liberdade de escolher entre a luz e a escuridão. A prática da feitiçaria é considerada como uma rebelião e a negação do Poder de Hashem.

 

Um judeu que recolhia impostos, e cujo coração era impiedoso, morreu no mesmo dia que um Talmid Chacham (Sábio). Seus caixões foram carregados ao mesmo tempo para o cemitério. O caixão do coletor de impostos atrás do caixão do Talmid Chacham. No meio da procissão apareceram saqueadores armados. Todos aqueles que escoltavam os caixões fugiram. Apenas um aluno recusou-se a abandonar o caixão do seu mestre. Ele o velou durante o dia todo, até a manhã. Na manhã seguinte, aqueles que tinham fugido voltaram mas cometeram um engano e a família do coletor de impostos seguiu o caixão do Talmid Chacham enquanto os notáveis da cidade escoltavam aquele do vil coletor de impostos. O aluno protestou mas ninguém prestou atenção às suas palavras. O Talmid Chacham foi então enterrado no túmulo familiar do coletor de impostos enquanto este recebia sua sepultura com muitas honras, todos os notáveis pronunciando seu elogio fúnebre. O aluno ficou com o coração partido. Não conseguia entender a razão pela qual um rachá (malvado) tinha recebido tanta honra enquanto seu Rav tinha sido enterrado de maneira vergonhosa.

Na noite seguinte, seu mestre lhe apareceu em sonhos. E lhe disse: “Vou mostrar-te as honras que recebo no Gan Eden (Paraíso) e os sofrimentos do malvado coletor de impostos no Guehinom (inferno)”. O aluno teve então a visão do coletor de impostos jazendo no sol enquanto as dobradiças da porta do Guehinom giravam, fazendo sua rotação no ouvido dele. O mestre lhe disse então: “No curso da minha vida, um dia, ouvi como se insultava um Talmid Chacham e não protestei. Portanto fui punido no Olam Hazé (este mundo) recebendo uma sepultura desonrosa. Já o coletor de impostos, no curso da sua vida, embora mau, fez uma boa ação. Tinha preparado uma comida para convidar um nobre e este não veio. Ele distribuiu então a comida aos pobres. Por essa única boa ação ele recebeu sua recompensa no Olam Hazé, tendo sua sepultura com grande honra. Agora, ele precisa sofrer seu castigo no Guehinom.

- Até quando as dobradiças da porta do Guehinom vão girar no ouvido dele, perguntou o aluno.

- Até que Rabi Shimon ben Shetach venha aliviá-lo, tomando seu lugar” respondeu o mestre.

Desconcertado, o aluno perguntou: “Porque o grande Rabi Shimon ben Shetach, o chefe do Sanhedrin (Supremo Tribunal Judaico), deve receber tal castigo?

- Rabi Shimon ben Shetach ficou sabendo dos atos perversos de oitenta feiticeiras escondidas em cavernas em Ashquelon, respondeu seu mestre, e não mandou executá-las. Se quiser fazer um ato de bondade, vá dizer a Rabi Shimon ben Shetach: ‘Antes de ser Nassi (Chefe) do Sanhedrin, você fez um voto a Hashem, de mandar matar todas as feiticeiras do país; se você foi elevado a esta alta função, você falhou no cumprimento da tua promessa: portanto você deve ser castigado!”

- Como é que Rabi Shimon ben Shetach vai acreditar em mim?

- Se ele te pedir um sinal, coloca tua mão direita sobre teu olho. O olho sairá da sua órbita e logo voltará ao seu lugar!”

O aluno acordou. Logo cedo, ele foi rapidamente para perto de Rabi Shimon ben Shetach e lhe contou seu sonho. Mas quando quis mostrar-lhe o sinal, Rabi Shimon ben Shetach o interrompeu: “Chas Veshalom que eu me recuse a acreditar em você! Disse. Eu sei que você é um tsadic e que você pode fazer milagres. Mais ainda, tenho a certeza que só o Céu poderia te revelar esta promessa que fiz em sonho, e que ninguém ficou sabendo. Eu a fiz no meu coração e ela não nunca ultrapassou o limiar dos meus lábios. Tenha certeza que vou fazer tudo que estiver em meu poder para exterminar as feiticeiras!”

Apenas chegou um dia de chuva, Rabi Shimon ben Shetach fez oitenta dos seus alunos virem e deu a cada um deles uma jarra na qual havia colocado uma capa de chuva nova, dando-lhes suas ordens: “Coloquem as jarras sobre vossas cabeças e sigam-me até a entrada dos cavernas de Ashquelon. Fiquem do lado de fora e quando eu apitar uma vez, coloquem vossas capas de chuva. Quando ouvirm apitar uma segunda vez, corram em minha direção. Cada um de vocês deve então agarrar rapidamente uma feiticeira e carregá-la até o lugar que eu indicarei. Não temam carregá-las, já que os feiticeiros só têm poder quando seus pés tocam o solo!”

Os alunos seguiram Rabi Shimon ben Shetach até os arredores das grutas de Ashquelon. Rabi Shimon ben Shetach se aproximou, sozinho, da caverna onde, pelo que ele sabia, as feiticeiras se haviam escondido. Bateu na porta e lançou seu apelo: “Levantem, levantem e abram a porta! Um dos vossos colegas acaba de chegar!

-         Como pode chegar até aqui num dia tão chuvoso? Perguntaram as feiticeiras, como resposta.Esse não é um problema para um mago como eu! Disse Rabi Shimon ben Shetach.

-          Pelo poder da minha mágica eu andei entre as gotas de chuva e não me molhei!”

Ainda desconfiadas, as feiticeiras disseram: “Mas porque você veio até aqui?”

Rabi Shimon ben Shetach respondeu: “Vim ao mesmo tempo aprender e ensinar. Mostrem-me primeiro o que sabem fazer e eu realizarei prodígios para vocês!”

As feiticeiras abriram então a porta para Rabi Shimon ben Shetach e fizeram seus feitiços diante dos olhos dele. Uma das feiticeiras pronunciou uma fórmula mágica e apareceram pães na caverna. Outra fez voar garrafas de vinho. Duas outras exerceram sua magia e eis que pratos com carne assada e todo tipo de comida apetitosa foram colocados na mesa.

Depois de comprovar dessa maneira a sua perecia, elas falaram: “Agora, mostra-nos as tuas façanhas!

- Como vêem. Disse Rabi Shimon ben Shetach, a chuva é torrencial. Apesar disso, se eu apitar duas vezes, posso fazer aparecer instantaneamente oitenta jovens com roupas secas.

- Se você for capaz disso, gritaram as feiticeiras, admitiremos que você é um mágico com poderes superiores!”

Mal Rabi Shimon ben Shetach apitou, seus alunos, escondidos nos arredores da caverna, entenderam o sinal. Fizeram as jarras escorregarem dos seus ombros e colocaram a roupa de chuva. Mal ouviram o segundo apito, entraram rapidamente. Cada um deles pegou uma bruxa, colocou-a nos ombros e levou-a à forca que tinha sido previamente preparada. Desse modo, cada uma das oitenta feiticeiras foi enforcada.

Mas esta história teve um final trágico: as famílias das feiticeiras fizeram uma promessa de se vingar de Rabi Shimon ben Shetach. Subornaram falsas testemunhas para afirmar que o filho de Rabi Shimon ben Shetach era o assassino de um homem encontrado sem vida num campo.

Os juizes condenaram seu filho à morte.

Enquanto estava sendo conduzido para o local da execução, ele se virou para as testemunhas e declarou: “Se sou culpado, que minha morte não me sirva de expiação. Mas se sou inocente, que minha morte seja minha expiação e que as testemunhas sejam castigadas por seu pecado!”

As testemunhas empalideceram e confessaram: “Nosso testemunho era o fruto de uma conspiração destinada a satisfazer uma vingança contra Rabi Shimon ben Shetach!”

Rabi Shimon ben Shetach quis salvar seu filho da morte mas este se virou para os juizes e lhes disse: “Apliquem-me a sentença e não transgridam a lei da Torá de acordo com a qual as testemunhas não podem revogar seus testemunhos!”

Rabi Shimon ben Shetach se fez violência e ordenou a execução do seu filho.