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O Admur Hazaken 

O Rabi Shneor Zalman de Liadi* é o fundador da Chassidut Chabad*. Ele é conhecido por todo o povo de Israel como o “autor do Tania* e do Chulc´han Aru´ch*” (que são, respectivamente, o livro basico da Chassidut Chabad e o Código das Leis judaiacas). Ele mudou a divulgação do ensinamento do Baal Shem Tov* e o expressou de maneira racional para que qualquer pessoa pudesse ter acesso à parte profunda da Torá*.

        Seu sistema filosófico está registrado no Tania*, obra chamada de “Lei escrita da Chassidut*”. Publicado pela primeira vez em 5557 (1797), o Tânia* foi, a partir dessa data, reeditado milhares de vezes, o que faz com que seja o livro judeu mais difundido atualmente.

        A obra do “Rav*”  na área legislativa foi também muito decisiva e o Chulc´han Aru´ch*, o Código das Leis Judaicas,  que ele redigiu, a pedido de seu mestre, o Maguid de Mezerich*, é atualmente uma das obras de referência, administrando a vida cotidiana do povo judeu.

        Quando o Maguid de Mezeritch* deixou este mundo e que o Rabi Menachem Mendel de Horodok* foi para Eretz Israel*, o Rabi Shneor Zalman* se tornou líder do movimento Chassidico* na Rússia e teve dezenas de milhares  de discípulos. Ele se dedicou tanto aos eruditos, pelos quais ele fundou centros de estudo levando-os a perfeição do conhecimento, quanto aos judeus pouco estudiosos, pelos quais ele estimulou a volta aos trabalhos agrícolas para libertá-los das obrigações da cidade e das más ações da assimilação que já se manifestavam.

        Ele dirigiu também sua ação pela comunidade judaica como um todo. Foi nesse sentido que ele divulgou a voz da Torá* até Petersburgo. Ele teve que parar sua atividade depois de ter sido vítima de uma delação e passou cinqüenta e três dias na prisão de segurança máxima. Evidentemente, sua inocência foi provada, e em seguida, depois de sua detenção, seu ensinamento foi ainda mais divulgado. Também, o Rabi Shneor Zalman* teve um papel decisivo na resistência contra a invasão da Rússia pelas tropas de Napoleão. Ele conseguiu proteger os judeus da Rússia da assimilação que mostrava suas más ações na época, na França, sob a influência de Napoleão.

        Mas o Rabi Shneor Zalman* foi antes de tudo um Tsadik* um desses homens que consideram que a matéria do mundo não constitui um véu à divindade, um Justo que serve D´us em cada pensamento, cada palavra e cada ação. Ele colocou sua elevação moral ao serviço de seu povo e fez muitos milagres, realizando assim a sentença Talmúdica  “quando D´us faz um decreto, o Tsadik* o anula. Quando o Tsadik* toma uma decisão, D´us a ratifica”.

        Esses assuntos são mencionados neste fascículo através de várias

 histórias que permitem conhecer ainda melhor uma das personalidades judaicas que contribuiu para forjar a identidade do povo judeu na época atual.

 

O Baal Shem Tov e o  Rabi Shneor Zalman

 

Era quarta-feira dia 18 do mês de Elul* 5505 (1745). Quando o Baal Shem Tov* entrou na casa de estudo (Beth Hamidrash*), ele estava especialmente alegre. Ele próprio dirigiu a reza nesse dia, com ar de festas. Os Chassidim* ficaram particularmente surpresos. Eles ficaram ainda mais espantados quando viram que o Baal Shem Tov* não recitava a reza das suplicações, os “Tachanum*”. Quando ele anunciou um pouco mais tarde que ele tinha a intenção de fazer uma “refeição de Mitsva*” (especialmente para comemorar uma grande celebração), eles entenderam que este dia devia ser excepcional. Mas qual era o motivo dessa alegria? Ninguém ousou perguntar. Depois, o próprio Baal Shem Tov* deu a explicação.

“Foi na quarta-feira, quarto dia da semana que D´us iluminou o mundo com o sol, a lua e as estrelas. A Haftara* desta semana começa pelo versículo “Levante-se, Minha luz”. Hoje, D´us ofereceu para o homem uma “nova alma”, que iluminará a escuridão com sua Torá* e com seu serviço de D´us.”

        Foi assim que o Baal Shem Tov* anunciou a boa notícia. Uma criança tinha nascido, e depois se tornaria famosa por sua grande erudição, por sua Chassidut* e por seu amor pelo povo judeu. No ano precedente, no mês de Elul*, um jovem casal de Liosna, o Rabi Baruch* e sua esposa Rivka*, tinham visitado o Baal Shem Tov*. O Rabi Baruch* fazia parte da “confraria dos Tzadikim* escondidos”, que eram Chassidim* do Baal Shem Tov* e tinham a aparência de homens populares para executar em segredo as missões que eles recebiam de seu mestre, a fim de trazer uma ajuda material e espiritual para seus irmãos.

        O Rabi Baruch* era um grande Tzadik* e um erudito. Sua mulher era correta, virtuosa e também dedicada ao estudo. Os dois tinham vindo visitar o Baal Shem Tov* para lhe pedir uma bênção para ter um filho. Sua bênção foi realizada no dia 18 Elul* seguinte, dia do aniversário do Baal Shem Tov*, que nasceu nesta mesma data, quarenta e sete anos mais cedo. A criança foi chamada de Shneor Zalman*.

        O Baal Shem Tov* mostrou aos pais de que maneira eles deveriam educá-lo e, quando o Rabi Baruch* veio de noite em ocasião de Rosh Hashana*, ele fez perguntas a respeito. Foi assim todos os anos, e o pai feliz falou para o Baal Shem Tov*, quando Shneor Zalman* completou um ano, que ele falava como um adulto, e quando ele fez dois anos, que ele tinha uma memória fora do comum e uma inteligência excepcional.

        Quando a criança completou três anos, ela foi levada para o Baal Shem Tov* para que ele cortasse seus cabelos pela primeira vez. Depois da reza, ele foi levado para o quarto do Tzadik* que cortou seus cabelos, deixando as “Peot*” (o cabelo que cobre as têmporas não é cortado). Em seguida, ele colocou suas mãos sobre a cabeça da criança e o abençoou. Depois, a mãe e o menino voltaram para casa. Durante o caminho de volta a criança perguntou:

“Quem é este homem que cortou meus cabelos, que me deixou as Peot* e me abençoou colocando suas mãos sobre minha cabeça?”

A mãe respondeu:

“É seu avô.” (avô espiritual)

E, na verdade, durante toda sua vida, o Rabi Shneor Zalman* dizia “meu avô” quando se referia ao Baal Shem Tov*.

        Quando o Shneor Zalman* fez cinco anos, seu conhecimento sobre a Torá* era enorme. Ele era capaz de explicar claramente os trechos mais complicados do Talmud*. Ele continuou assim seus estudos durante mais dez anos. Suas capacidades fora do comum faziam com que ele assimilasse tudo de maneira clara e não se esquecesse mais. Ele contou mais tarde que ele sofreu ao perceber até que ponto o estudo era fácil para ele, e não exigia nenhuma concentração particular. A impossibilidade de adquirir os conhecimentos da Torá* com esforços lhe fazia falta. Desde muito cedo, ele sentia um amor infinito por cada judeu, fosse ele erudito ou ignorante, rico ou pobre. Quando ele fez sua Bar Mitsva*, o jovem Shneor Zalman* recebeu o título de “Gaon*” (gênio).

        Ele se casou com quinze anos e se estabeleceu em Vitebsk. Com o dinheiro que ele recebeu em ocasião de seu casamento, ele comprou terras onde instalou famílias judias, para que elas se dedicassem aos trabalhos agrícolas. Durante toda sua vida, ele se inquietou com a subsistência material dos judeus. Ele escolheu também professores para ensinar a Torá* para seus filhos. Com quinze anos, o Rabi Shneor Zalman* escolheu alguns jovens e ele próprio lhes ensinou a Torá* e a Kabala* durante três anos.

Parece que o Baal Shem Tov* se escondeu do Rabi Shneor Zalman*. Na verdade, ele explicou ao seu discípulo, o Maguid de Mezeritch*, que ele queria que este viesse vê-lo com iniciativa própria, sem influência exterior. Com vinte anos de idade, o Rabi Shneor Zalman* decidiu, com o acordo de sua esposa, a Rabanit*, sair de casa para estudar a Torá exilado, durante alguns anos. Ele foi então para Mezeritch e se tornou o Chassid* do Maguid, Rabi Ber*. Dois anos mais tarde, ele foi nomeado o Maguid de Liosna. Com vinte e cinco anos, ele começou a redigir seu Chul´chan Aru´ch*  (código das Leis da Torá*), a pedido do Maguid* de Mezeritch. Sua obra, que foi chamada “Chulc´han Aru´ch* do Rav*”, fez com que ele fosse reconhecido por todo o povo judeu como um erudito com grandes conhecimentos.

Quando o Rabi Ber*, o Maguid de Mezeritch*, deixou este mundo em 5533 (1773), o Rabi Shneor Zalman* se tornou chefe dos Chassidim Chabad*. Uma fase nova e particularmente rica de sua vida começava então. O Rabi Shneor Zalman* escreveu muitos livros, cujo mais famoso é o Tania*, que é a obra fundamental da Chassidut Chabad*. Este livro foi impresso pela primeira vez quando o Rabi Shneor Zalman* tinha cinqüenta e dois anos e já tinha muitos Chassidim*. Desde então, centenas de edições do Tania* apareceram, praticamente em todos os países do mundo.

O Rabi Shneor Zalman* deixou este mundo no final do Shabat*, véspera do dia 24 Tevet* 5573 (1813). Que seu mérito seja nossa proteção.  

 

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