A Primeira Serpente

A Primeira Serpente

A PRIMEIRA SERPENTE

O MAU CAMINHO QUE É PRECISO EVITAR

Na décima Mishná do segundo capítulo de Avot, Rabi Elazar bem Arakh designa o mau coração como o mau caminho do qual o homem deve se afastar. A Escritura Sagrada diz que a formação (ou a inclinação) do coração humano é má desde a sua juventude.

Este é o mau caminho do qual o homem deve se afastar, o mau coração. Ao referir-se a ele o sábio rei Salomão disse: “O caminho dos maus os conduz às trevas, a ponto que eles não percebem mais aquilo que os faz tropeçar” (Provérbios, 4:19). Um homem assim não tem amor a D’us nem aos seus semelhantes. Ele só ama a si; e aliás não é a ele que ele ama mas unicamente à satisfação da sua ambição, da sua atividade, da sua sede de prazeres. Ele se acha o centro do mundo e não ama nem mesmo os mais próximos dele, que ele só ‘ama’ enquanto estes lhe proporcionam prazer e ele se aproveita deles. Ele finge amar seus parentes enquanto eles podem lhe outorgar benfeitorias; à sua mulher enquanto ela é a alegria dos seus olhos e seus filhos enquanto ainda lhe causam prazer; seus amigos enquanto pode aproveitar deles. O sábio rei Salomão nos esboçou este estado através de uma bela alegoria: “São como vasos de barro recobertos por um verniz prateado, é isso o que são lábios quentes de amor de um mau coração”(Provérbios, 26:23). Usando a escória que sobra quando se funde a prata, é possível obter uma massa brilhante e reluzente com a qual se faz uma prateação, que quando recobre um vaso de barro comum, este vai parecer prateado. Mas ao usá-lo, ele vai quebrar nas nossas mãos. Assim são as falsas promessas de amor de uma mau coração. Coitado de quem nelas acreditou; o que ele achou que fosse metal de verdade se reduziu logo a um monte de cacos sem valor.

A ambição ilícita (a procura de honrarias e de posições sem denominador comum com o valor do homem, com seus talentos ou seus esforços, ou com os serviços por ele prestados) figura entre os aspectos mais ignóbeis da natureza humana.

Essas pessoas são sempre medíocres, inúteis, e mais ainda: são pessoas daninhas que cultivam essa paixão. Aliás isso se explica. Elas têm um sentimento confuso que lhes é impossível entrar em competição com os homens de valor e de talento que servem à sociedade – pelo menos no seu terreno, o terreno das competições ilícitas. Elas sentem um ciúme intolerável deles, um sentimento de frustração e quase de injustiça: “Porque esse aí é mais capaz que eu?” Mas nunca se fazem a pergunta: “Porque esse trabalhou mais do que eu, para saber mais e para galgar as posições da dignidade humana?”

Portanto, sentindo-se frustrada, essa pessoa ataca com as armas dos medíocres: a astúcia ou a violência, ou as duas reunidas. Incapaz de elevar-se para o nível de quem a ultrapassa, ela só tem uma meta: fazer cair aquele que está num degrau de valor superior; rebaixá-lo, humilhá-lo, sujá-lo.

É preciso reconhecer que o homem superior é também, para este tipo de ambicioso, um obstáculo. Será que este tipo não lembra a serpente da época da Eva? A serpente era o mais astuto dos animais antes do homem aparecer; mas este resultou ser mais inteligente. Se não fosse o homem, ela seria a coroa da Criação, assim imaginava. É dessa maneira que o agressivo medíocre raciocina.

É isso o que nos mostra a Torá quando nos conta a história do odioso Corach e das suas intrigas contra Moshé e contra Aharão. Pelo menos ele teve o fim odioso que merecia, sem ter obtido sucesso na sua obra de subversão.

Porém não foi o único a morrer. Aqueles que ele havia envolvido morreram com ele.

Excelente exemplo para todos aqueles que ouvem voluntariamente o chamado tentador das intrigas do submundo.

A honra vem para aqueles que a merecem e só tem valor numa sociedade em que essa palavra, honra, faz sentido, enquanto não tem nenhum no seio de um grupo social em que “as honras” (que não se devem confundir com a Honra) são adjudicadas à força de murros e da perfídia.