8. Querer Sair do Exílio

B’SD

Querer sair do exilio

A filha do imperador foi banida e enviada a um país estrangeiro, onde casou com um camponês. Como ela estava triste, seu jovem esposo, que possuía um bom coração, decidiu por todos os meios agradá-la. Enquanto ela se preparava para entrar pela primeira vez no seu novo lar, ele organizou tudo cuidadosamente com antecedência. Mobiliou a casa com gosto; encheu os armários e placares com vestidos, sedas e quinquilharias em sua intenção. Mandou também preparar uma refeição a base de salsichas, salada de batata e cerveja. Ele até pagou o músico da cidade para tocar um órgão primitivo sob a sua janela.

O homem fez com que sua mulher entrasse em casa e sentaram para comer. O homem mastigava sua comida com satisfação enquanto escutava a música do órgão. Nadando de felicidade, ele não se deu conta logo que sua mulher não partilhava da sua alegria. Pelo contrário, ela parecia profundamente melancólica. Consternado, seu marido perguntou-lhe: “O que está acontecendo, minha querida esposa? Será que a salsicha não está suficientemente condimentada ou você não gosta de cerveja? Você acaso não aprecia esta música celestial?”

Com estas palavras, a princesa quase caiu em prantos mas recusou-se a responder. Ela não dividiu com ele seus pensamentos, incapaz de transmitir as imagens que desfilavam na sua mente. Como poderia ele entender as delícias da sua juventude, ele que nunca conhecera o estilo de vida da nobreza, que nunca havia visto nem dado uma olhadela sequer no interior do palácio real? Como poderia imaginar os banquetes diários do palácio do seu pai, com os pratos mais delicados e mais sofisticados, as frutas mais raras e mais exóticas? Comparada com isso, até a melhor comida deste rude camponês era repugnante. Que sabia ele de vestidos elegantes, de aposentos do palácio cobertos de espelhos ou de tapetes? Sabia ele que com o mínimo gesto da sua mão, um servidor se apressava para cumprir a vontade da princesa? No seus ouvidos ressoava ainda a música que a orquestra real oferecia nas grandes ocasiões, esta harmônica sinfonia que só podiam produzir pianistas e violinistas hábeis e inspirados. O som destoante do órgão da aldeia era um insulto aos seus ouvidos exercitados!

O judeu que se sente à vontade no exílio se parece ao camponês da fábula. Sua idéia de grandeza é a de um fazendeiro que pensa que a vida não tem alegria maior a oferecer que uma salada de batata com cerveja.

Como pode um judeu desejar verdadeiramente a Redenção se ele não tem consciência da glória e da grandeza que nosso povo gozou e que perdeu depois? É só por meio do estudo da Torá que podemos nos fazer uma idéia do grau de esplendor e nobreza do nosso passado.

O Beit Hamicdash (Templo Sagrado) foi chamado “messos col haarets”, a alegria de toda a terra. Quando nossa nação residia com toda segurança em Erets Israel (a terra de Israel), governada pela lei da Torá e guiada por um rei que temia a D’us e aos Sábios da Torá, o país vivia em paz e com segurança material e espiritual. Sabendo que Hashem (D’us) estava entre eles, o povo vivia uma vida de elevação espiritual e de alegria. Comparada a isso, nossa existência de hoje é, citando o livro do “Cuzari”, a de “ossos ressecados e sem vida”.

Hoje em dia costumamos organizar cerimônias de bar mitsva ou de casamento no Cotel, o Muro Ocidental em Jerusalém. É um lugar onde se reúnem grupos para cantar e dançar.

Quando o Gaon e Tsadic Rabi Iehoshua Leib Diskin (falecido em 1898) foi ao Cotel pela primeira vez, ele desmaiou. Nunca mais voltou a visitar o lugar sagrado, incapaz de suportar os pensamentos e a emoção que uma peregrinação dessas evocava.

Quem não se sente exaltado ao visitar o Empire State Building, em Nova Iorque, a Torre Eifel em Paris ou o Palácio de Buckingham em Londres, monumentos que expressam os valores e a força dos seus respectivos países? O paitan/poeta, expressa, entretanto, os sentimentos do judeu verdadeiramente fiel à Torá e chora ao ver esse espetáculo:

Ezquera Eloquim veehemiá

Bir’otí col ir al tila benuiá

Ve’ir haEloquim muchfelet ad sheol tachtía

Recordo o Todo-Poderoso e choro

Ao ver cada uma das cidades estabelecidas sobre sua colina

Enquanto a Cidade de D’us é rebaixada

Ao mais profundo dos abismos.*

* Este grito é tão válido hoje quanto no passado, embora Ierushalaim (Jerusalém) esteja hoje construída e repovoada. Apesar do aumento da construção, a cidade continua sendo uma ruína espiritual, um corpo sem alma, porque ela ainda não viveu o retorno da Shechina (a presença Divina).

Apenas o judeu para o qual o passado está vivo e que compreende como se ali estivesse, as alturas que nosso povo outrora alcançou, pode dividir estes sentimentos. Um judeu que não estuda a Torá não pode reencontrar mentalmente o nosso passado e não pode, portanto, ter consciência do modo de ser ideal último do Povo Judeu.

Infelizmente, pelo menos a metade do nosso povo ignora completamente nossa herança e se perdeu por meio de casamentos mistos. Do restante, uma grande porcentagem tira sua informação sobre o judaísmo dos jornais e pensa que o ponto culminante do judaísmo se alcança passando os domingos numa pizzaria (casher). O próprio fato de tolerar o exílio com um sentimento de satisfação e de suficiência é em si o que atrasa a Redenção.

Só existe uma maneira de se elevar acima da concepção de felicidade do camponês: estudar a Torá nas suas fontes originais. Quando consideramos a triste situação do nosso povo é impossível congratular-nos do que somos e deixar-nos cair numa poltrona. Para dar fim ao nosso exílio é preciso que todos desejemos ardentemente que ele acabe, guiando nossos filhos para que eles alcancem todo seu potencial no estudo da Torá.