Preso na própria armadilha

Preso na Própria Armadilha

Perturbado e envergonhado, ele se apresentou diante do Rebe de Kotsk, aquele que chamavam respeitosamente o "Saraf", o "anjo ardente" de Kotsk. Transtornado e emocionado, o antigo comerciante próspero começou a balbuciar: "É, cometi um erro, casei por engano com uma pobre empregada ..."

Há muitos anos atrás, ele tinha sido um homem de negócios respeitado e muito rico; morava numa casa grande com muitos serviçais. Nada lhe faltava e ele sabia distribuir boa parte da sua renda para todas as instituições de caridade. Sua vida familiar era também um modelo de sucesso: sua esposa era dotada de todas as qualidades e seus filhos estavam no bom caminho.

Sara Léa já era empregada da família há muito tempo. Dedicada e silenciosa, ela tinha economizado seu salário tostão por tostão e tinha agora uma boa quantia que certamente lhe serviria para quando casasse. Enquanto isso, pediu ao patrão que tomasse conta das suas economias. Este aconselhou-a a comprar bilhetes de um tipo de "Loteria Nacional"; (título de capitalização?) caso ganhasse, ela não seria obrigada a tirar logo o prêmio e enquanto esperava poderia jogar tantas vezes quantas quisesse e até, quem sabe, poderia ganhar o grande prêmio. Aceitou e confiou o bilhete ao pai. Mas pediu ao patrão que anotasse o número do bilhete e verificasse de vez em quando o seu valor.

Ele aceitou e a cada semana, isso tornou-se um hábito: consultava a lista dos bilhetes ganhadores, para ele e para ela. Ela continuou trabalhando na casa do patrão. Passaram os anos mas nenhum marido se apresentou. E ela se acostumou progressivamente com a idéia de que seu celibato seria de longa duração.

Entretanto o comerciante foi acumulando preocupações. Primeiro a mulher morreu; os filhos já eram casados e ele se viu sozinho naquela casa grande. Aliás a casa ia se esvaziando pouco a pouco já que os negócios periclitavam. Em pouco tempo ele estava até passando necessidade; há muito tinha despedido seus muitos empregados.

Vendeu a casa, e com isso pôde pagar parte das dívidas e instalar-se numa cabana abandonada. Mas conservara seus hábitos; toda semana ia ao banco verificar os bilhetes que tinham ganhado. Ele mesmo perdera o seu bilhete há um bocado mas como prometera à empregada cuidar do dela, não é mesmo, mantinha a palavra.

Certo dia não acreditou no que via: a sorte grande de 100.000 rublos era, claro! do bilhete comprado há tanto tempo pela empregada! Agora ela estava rica! Era preciso anunciar-lhe a notícia.

Foi então que seus hábitos de comerciante esperto se sobrepuseram. Porque correr? Quem sabe tudo isso pudesse virar uma vantagem para ele ... Seu plano era claro. Foi ao "Chadchane", casamenteiro profissional. Será que ele poderia sugerir à empregada, que já não era tão jovem, que se casasse com ele?

Ele, aliás, ainda era um homem de respeito e ela teria a possibilidade de começar uma vida nova. Por outro lado, ele aproveitaria da nova riqueza da nova esposa e poderia voltar aos negócios.

Como previsto, ela ficou muito feliz com essa proposta e o casamento foi celebrado em pouco tempo. Para ele, isso representava um certo descenso social mas não se preocupou: era uma etapa necessária para se tornar rico.

Após os sete dias tradicionais de regozijo, ele achou que tinha chegado o momento de anunciar-lhe a boa nova. "Sara Léa, estamos ricos! Teu bilhete de loteria foi premiado com a sorte grande! Você se da conta?"

Mas ela não mostrou nenhum sinal de alegria: "Faz tempo que meu pai revendeu o bilhete!"

Ele quase desmaia. Todo seu plano desmoronava. Era um castelo de areia. Ele continuava tão pobre quanto antes e além do mais, tinha agora a seu cargo mais uma pessoa!

Voltou a si. Certamente algo poderia ser feito. Seu casamento fora construído sobre uma base equivocada, certamente o Rabi encontraria um meio de anulá-lo. Mas o "Saraf" de Kotsk, depois de ouvir sua história, sorriu e lhe disse: "Você pensa que um casamento é uma operação comercial como outra qualquer? D'eus pode fazer com que os acontecimentos se dêem de modo tal que Ele consegue unir duas pessoas que a priori não pareciam feitas uma para a outra. Mas de qualquer maneira é D'us que decide quem casa com quem. Não foi na tua armadilha que você caiu: foi a vontade de D'us que se cumpriu. Às vezes Ele é obrigado a usar um ardil ainda mais sutil que o usado com você.

Volta para casa, regozija-te com tua nova esposa porque é ela que está destinada para você desde a Criação do Mundo e D'eus certamente os abençoará material e espiritualmente.