O que está acontecendo ?

B’SD

História Número 3 - O que está acontecendo com meu filho?

Há cerca de cinco anos, meu filho que tinha 24 anos trocou sua moto, seu rabo de cavalo e seu jeans rasgado por um terno preto, uma Quipá e livros. Foi assim que começou uma nova vida, uma vida feita por: “isso eu não como”, “isso eu não faço” e “a esse lugar eu não vou”. No lugar do meu filho eu só via um chapéu preto.

O que eu tinha transmitido aos meus filhos era o “guefilte fish”, as salsichas de Francfurt e o borscht; ficávamos em casa nos dias de festa, ascendíamos as velas de chanucá e fazíamos o Seder de Pessach. Agora tento entender: como foi que isto aconteceu? como meu filho passou daqui para “lá”?

Eu não sei. De fato, eu devia ter observado alguns indícios: numa véspera de Iom Quipur, ele comeu sozinho para terminar a refeição antes do por do sol, enquanto nós esperávamos para começar a chegada do seu irmão que estava atrasado. Ele começou a fazer casher ao seu modo; não misturava mais o leite e a carne e não comia mais camarões e porco no restaurante chinês.

Apesar dessas pequenas mudanças, ele ficou noivo com uma não judia e prepararam o casamento. Todo mundo ficaria contente já que haveria um padre e um rabino. O padre exigia, entretanto, um encontro preliminar com os noivos. Após isso, meu filho disse: “Eu acho que antes vou ter que saber um pouco mais sobre as minhas origens.” E ele decidiu dar uma chance ao judaísmo, só para ter uma idéia da coisa. No princípio, ele ia ao curso do rabino de carro, no Shabat; depois ele decidiu que ele não dirigiria mais no Shabat. Logo ele cortou o cabelo. E em cima colocou uma Quipá.

Gradativamente, essa mudanças apresentaram um problema para sua noiva; eles decidiram adiar o casamento. E ele passou um ano em Israel. Em resumo, houve mudanças, mas não somente para meu filho. Eu queria que ele pudesse comer em casa: fiz então a minha cozinha casher. Meus outros filhos não estavam contentes. Nossos amigos debochavam de sua adesão escrupulosa à cashrut, do seu modo de se vestir, clássico demais, muito preto, de sua observância meticulosa das leis do Shabat: “De que podemos falar com ele agora?”, “Não ligue, vai passar...” “Essas crianças, não deixam de causar problemas, não é?”, ou ainda: “Pelo menos, D’us obrigado, ele não está nas seitas...”

Estávamos convidados para um casamento num sábado de noite em Baltimore. Chegamos na sexta feira de tarde no hotel com outros convidados vindos de longe. Não tinha sinagoga perto e meu filho se fez convidar na casa de uma família religiosa num outro bairro. E não apareceu na refeição pré-nupcial.

Que falta de savoir-faire! ”Aonde está seu outro filho?” “Não é o bastante casher para ele?”, “Ele sempre gostou de fazer esse tipo de história?” Por outro lado, um casal que chegou durante o shabat de carro não teve problema: claro, eles trabalhavam no Shabat e estavam totalmente desculpados por chegarem tarde...Esta era uma razão absolutamente válida! Eu estava ali, me lamentando: “O que fiz para merecer isso” quase esquecendo que apesar de tudo, ele continuava meu filho, que tínhamos muitas outras coisas em comum. Um dia, recebi um telefonema do meu outro filho: “O Senhor Talmud, como ele chamava agora o irmão, veio no escritório (eram sócios na mesma empresa); ele estava, claro, todo de preto, com sua barba e sua Quipá atarraxada no crânio, e isso me incomodou de verdade. Mas pensei: é meu irmão, eu gosto dele, é ele que é importante, por que importar-se?” De fato, ele tinha se aberto para aquilo que ele considerava uma “loucura” da parte do irmão. Ele se fez umas perguntas sobre Iom Quipur e finalmente decidiu observar escrupulosamente este dia. É uma coisa que ele nunca faria antes.

Depois, meu primogênito decidiu mudar as crianças de escola, colocou-as numa escola judaica: Minha neta de três anos já mexe as mãos em torno da sua vela na sexta feira de noite e faz a benção. E assim nossa família tem algo novo, ou melhor, velho...

Sem dúvida, eu não vou ser nunca tão praticante quanto meu filho, me faltam ainda átomos para certos assuntos. Mas estou profundamente impressionada com sua vida espiritual, seu sentido da hospitalidade, seus valores morais sobre os quais se pode contar. O judaísmo me parece muito mais bonito e profundo: imaginem só, eu sei de cor a benção das velas de Shabat!

O judaísmo acrescentou uma nova dimensão na minha vida. Aderi a uma nova organização: a das mães de Baalei Tshuvá (essas crianças que voltaram a uma observação estrita das Mitsvot). Tomamos café; juntas nos contamos nossas experiências e um rabino nos da um curso; se não tem nenhuma perto da sua casa, organize você mesma este tipo de reunião, os conselhos de um rabino compreensivo estão sempre impregnados de sentido comum. Sabemos que nossos filhos não nos rejeitaram, mesmo se escolheram um estilo de vida tão diferente do nosso. Nossa geração procurou outros caminhos para encontrar a felicidade. Nossos filhos procuram também uma vida melhor para eles e para seus filhos. E encontraram o que procuravam no judaísmo.

Marcia Schwartz