3. Bo


B’SD

Kol Hamoshiach

PARASHAT BO

Conteúdo da Parashá:

Þ  A oitava praga: arbé/os gafanhotos.

Þ  A nona praga: Choshech/as trevas.

Þ  A advertência referente à décima praga.

Þ  A primeira mitsvá dada aos Bnei Israel: Quidush haChodesh, a santificação da nova lua.

Þ  Hashem da a ordem de oferecer o sacrifício de Pessach e de cumprir Pessach em todas as gerações.

Þ  Os Bnei Israel fazem a milá e oferecem o corban Pessach.

Þ  A décima praga: macat bechorot/a morte dos primogênitos.

Þ  Faraó implora Moshé para os Bnei Israel partam imediatamente.

Þ  Ietsiat Mitsraim: a saída do Egito.

Þ  O que significa Ietsiat Mitsraim (a saída do Egito) para nossa geração.

Þ  A mitsvá de santificar o primogênito macho humano bem como o dos animais.

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MEIA NOITE

Quando Moshé anunciou ao Faraó a última das dez pragas, a morte dos primogênitos, ele especificou a hora em que ela se abateria sobre o Egito: meia noite exatamente. Detalhe curioso?

Quando Moshé preveniu o Faraó sobre as nove pragas precedentes, ele nunca tivera a necessidade de precisar a hora!

É que a meia noite evoca um tempo além do tempo.

Cada parte do dia e da noite expressa uma força espiritual.

A primeira metade da noite, quando tudo vai escurecendo, expressa o princípio do rigor, da severidade divina.

A segunda parte da noite, onde tudo vai aclarando, indica a revelação da bondade de D’us.

O instante da meia noite liga ambos. Ele se situa além dos dois. Ele evoca a essência do divino, superior, além de qualquer lógica, de qualquer racionalidade humana, capaz de unificar rigor e bondade. É deste nível que provém a libertação.

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A fixação da neomênia

A mitsva do calendário lunar

Na Sidra Bo, D’us se dirige a Moshé e a Aharon e lhes diz: “este mês (Nissan) será para vocês o começo dos meses, o primeiro dos meses do ano”. (Shemot 12:2).

Esta declaração divina se refere, na realidade, ao mandamento positivo que consiste em estabelecer o calendário lunar.

Na época do Talmud, o tribunal determinava o momento preciso da neomênia (lua nova) graças ao testemunho ocular de duas pessoas com credibilidade e aos cálculos astronômicos realizados pelos membros do Grande Tribunal.

Estes fatos podem levantar a seguinte questão: na medida em que a Torá confia em duas testemunhas, porque precisava que seu testemunho fosse confirmado por cálculos? (Devarim 19:15).

Na verdade, o fato de conhecer com precisão o momento da lua nova tinha uma importância tão grande que precisavam, naquela época, associar testemunhas e cálculos. É preciso, no entanto, entender a singularidade deste mandamento.

Com respeito ao versículo que citamos no princípio da sidrá, nossos sábios comentam: “teria sido absolutamente normal que a Torá comece pelo mandamento que prescreve a santificação da nova lua”, já que, como o observa Rashi, “este é exatamente o primeiro preceito que os Judeus receberam”.

A evidência que Rashi sublinha poderia, por outro lado, ser questionada. De fato, não teria sido mais judicioso começar a Torá com o primeiro dos Dez Mandamentos: “Eu sou o Eterno, teu D’us” (Êxodo 2, cap. 2) que nos leva a acreditar na existência de D’us e consequentemente a submeter-nos à Sua Vontade.

Esta aceitação do Jugo Divino, não seria o fundamento, a própria pedra angular da nossa religião?

A explicação é a seguinte. Certo, “Eu sou o Eterno teu D’us” é fundamental para o cumprimento dos mandamentos. Mas “este mês será para vocês” representa um objetivo último, a finalidade de todos os mandamentos divinos e é por isso que a Torá escolheu precisamente esta declaração como primeiro preceito. A finalidade da Torá e das Mitsvot é permitir aos Judeus trazer uma inovação, em hebraico Chidush, ao mundo. E é com esta alusão que a Torá quis atrair nossa atenção, usando a expressão “este mês”, já que em hebraico Chodesh (mês) está etimologicamente próximo de Chidush (inovação).

Este poder de inserir a novidade no mundo foi outorgado ao povo judeu, porque é pelo cumprimento da Torá e das Mitsvot que os Judeus podem transformar o mundo numa “moradia para D’us”. Moradia cuja verdadeira realização veremos na época messiânica, o que constituirá uma inovação sem precedente. Deste modo, preparar o mundo para ser uma moradia para D’us implica em dois objetivos essenciais:

1)  Transformar os níveis mais baixos do mundo material em uma moradia adequada para receber a Presença divina.

2)   Do mesmo modo que a essência de um indivíduo reside na sua casa, assim também, a Essência divina deve revelar-se no mundo.

Estes dois objetivos contêm, eles também, uma inovação incontestável. Transformar este mundo aqui em baixo numa moradia para D’us pressupõe uma anulação total do ser humano, sua submissão a D’us.

Nossos Sábios comparam o povo judeu à lua, cujo renascimento e elevação são em todos os pontos semelhantes à do povo Judeu no seu cumprimento da Torá e das Mitsvot e isto de duas maneiras:

1)  A elevação das faculdades internas do homem (inteligência e sentimentos) por um serviço divino decididamente racional.

2)  A elevação da essência da alma graças à submissão total à Vontade divina, de modo irracional.

Estas duas maneiras de servir a D’us se encontram na maneira de fixar a neomênia.

1)  O Serviço divino racional está ligado à fixação da neomênia por cálculos astronômicos que fazem apelo a uma decisão lógica, racional.

2)  Por outro lado, a percepção da nova lua por testemunhas está ligada ao serviço divino supra-racional, na medida em que a testemunha acredita firmemente no que viu, mesmo se isso é contrariado pelas leis da lógica.

O peixe nojento

SEMPRE SE PAGA O MAL QUE SE COMETE

O chefe dos cozinheiros do palácio real recebeu em confiança uma grande soma de dinheiro para comprar peixe para o jantar do rei. Ele voltou com um peixe que cheirava mal e pelo qual tinha gasto o dinheiro todo. Quando o rei ficou sabendo disso, ele disse: “Você vai ser castigado por tua negligência! Escolhe entre comer o peixe, pagá-lo ou receber cem chicotadas!” “Eu vou comer o peixe”, respondeu o cozinheiro. Começou a mastigá-lo mas o cheiro era tão repugnante que ele não pode continuar. “Eu ainda prefiro as chicotadas”, disse. Os soldados do rei começaram a bater nele. Quando sentiu o chicote nas costas, gritou de dor. “Parem! Prefiro pagar!” Pagou portanto o preço do peixe depois de ter comido dele e também de ter sentido o chicote.

Da mesma maneira, o faraó e os egípcios pagaram caro seus crimes com respeito aos judeus. Primeiro tiveram chagas no corpo, depois tiveram que pagar aos judeus com ouro e prata. Cada judeu saiu do Egito levando noventa burros carregados de ouro, prata e pérolas.

IETSIAT MITSRAIM: A SAÍDA DO EGITO

Era a manhã de quinze de Nissan 2448. O país do Egito estava cheio de mortos e agonizantes. Os primogênitos não tinham todos morrido ato contínuo. Hashem (D’us) julgou cada um deles individualmente. Alguns pereceram imediatamente e outros agonizaram até a manhã; outros ainda sofreram a praga durante três dias antes de expirar. Em cada casa egípcia havia de cinco a dez mortos, porque além dos primogênitos, Hashem (D’us) tinha atingido os egípcios perversos que se opunham à libertação dos judeus. Mas os egípcios não ficaram com seus mortos: foram correndo para Goshen com animais e carruagens e suplicaram aos judeus que partissem porque, assim pensavam, “vamos todos morrer logo”.

Antes de partir, os judeus pediram aos seus vizinhos egípcios ouro, prata e roupa, porque não tinham esquecido a ordem de Moshé. Este tinha lhes transmitido as palavras de Hashem (D’us): “Diga, por favor, ao povo, que cada um deverá reclamar do vizinho egípcio ouro, prata e utensílios. Dessa maneira se cumprirá a promessa que fiz ao seu ancestral Avraham: eles sairão com grandes riquezas.”

O que significa Ietsiat Mitsraim (a saída do Egito) para nossa geração.

Cada geração tem seus incrédulos, seus ateus, seus cépticos, seus debochados, que negam a Providência de um D’us que sabe tudo e tentam nos persuadir que não há nem recompensa nem castigo. O Todo-Poderoso pode facilmente refutar suas demonstrações realizando milagres que mostrariam Sua existência e Seu poder.

Mas será preciso que Hashem provoque uma subversão do cosmo e que Ele altere as leis da natureza por causa desses tolos e dos filósofos de cada geração que negam Sua existência?

Em vez disso, Hashem preferiu demostrar Sua providência e Sua Força de uma vez por todas, mandando as pragas sobre o Egito e libertando dali nossos antepassados. Os acontecimentos que ocorreram antes e durante Ietsiat Mitsraim provam, de fato, que:

·  Hashem se comunica com os grandes homens e os designa como Seus profetas, como o vemos quando Hashem se dirige a Moshé e o informa sobre as pragas que estão por acontecer.

·  Ele castiga os reshaim (malvados) como o mostra o castigo dos egípcios.

·  Ele dirige os assuntos do mundo como o prova a libertação dos judeus que estavam reduzidos à escravidão.

Foi nosso povo inteiro que testemunhou os acontecimentos que acabamos de citar. E eles não somente foram consignados na Torá e transmitidos oralmente de geração em geração, como também Hashem nos ordenou cumprir um grande número de mitsvot (mandamentos divinos) para estarmos seguros que Ietsiat Mitsraim e todos seus milagres ficarão sempre frescos na nossa memória.

·  Para isso ele nos ordenou mencionar Ietsiat Mitsraim quando lemos o Shemá (Dvarim 16.3).

·  Ele nos ordenou escrever parágrafos que falam de Ietsiat Mitsraim em rolos de pergaminho e colocá-los nos tefilin.

·  Ele nos pediu que observássemos Pessach e Shavuot em cada geração, como lembrança de Ietsiat Mitsraim, e ainda muitas outras mitsvot.

Dessa maneira, uma pessoa que compra uma mezuza e a fixa na sua porta não adquiriu simplesmente um pergaminho e o pregou no vão da sua porta: com esse ato ela cumpriu uma mitsva, pela qual ela reconhece que Hashem é o Criador. Da mesma maneira, a Torá decreta a gravíssima pena de caret (separação) sobre alguém que consome chamets (farinha fermentada) em Pessach porque com este ato a pessoa negou sua crença em Ietsiat Mitsraim e consequentemente em todos os fundamentos da Torá.

Aquele que nega Ietsiat Mitsraim renega D’us e Sua Torá e aquele que reconhece Ietsiat Mitsraim admite a verdade de Hashem e da Sua Torá.

Nesta parashá encontramos uma mitsva especial que consiste em contar a história de Ietsiat Mitsraim na noite de quinze de Nissan, no momento em que a Matsá (pão ázimo)(que temos a obrigação de consumir nessa noite) se encontra diante de nós. Mesmo se não há mais ninguém presente, será preciso contar a si mesmo a história da Saída do Egito.

Os judeus no deserto.

Após a morte de centenas de milhares de egípcios durante a praga que atingiu os primogênitos, o comportamento do faraó com respeito aos judeus mudou radicalmente. Não somente os mandou embora com palavras doces mais ainda os escoltou pessoalmente até que houvessem deixado o país.

Devemos cumprir as Mitsvot (mandamentos Divinos) da mais bela forma possível

Esta Mitsvá nos obriga também a adquirir tefilin, mezuzot, e outros artigos religiosos que tenham sido escritos com o maior cuidado e a maior perfeição no plano da halachá (poskim)(leis). O midrash indica que um judeu deve usar o sentido estético inato comum a todos os homens para adquirir belos objetos de quedushá (santificados) e não se esforçar para adquirir objetos cujo valor é efêmero, como belos móveis ou belas roupas. O desejo de beleza e de perfeição no cumprimento das mitsvot como a Torá o concebe exige a educação de si mesmo. Ele contrasta com a triste realidade de um Bar Mitsva de cem mil dólares (bufê, orquestra e todo o resto) no qual se comprou um par tefilin dos mais baratos. Da mesma maneira as pessoas gastam grandes somas para mobiliar suas casas com objetos de primeira qualidade e ter o mais belo interior. Mas ornamentam esta mesma casa com as mezuzot menos caras.